“Há quem leve o consumidor a acreditar que está a beneficiar os produtores portugueses quando isso não é verdade”
A afirmação é de João Paulo Girbal, presidente da Centromarca, que acusa algumas marcas e cadeias de distribuição de se aproveitarem da falta de informação dos consumidores para levá-los “a acreditar que está a beneficiar os produtores portugueses quando isso não é verdade”.

Pedro Durães
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Marcas bem-sucedidas conjugam marketing de desempenho com construção da marca
A afirmação é de João Paulo Girbal, presidente da Centromarca, que acusa algumas marcas e cadeias de distribuição de se aproveitarem da falta de informação dos consumidores para levá-los “a acreditar que está a beneficiar os produtores portugueses quando isso não é verdade”. “Estes esforços de apoio à produção local pelas cadeias da distribuição acabam por ter um objectivo mais de marketing do que real pois não são consubstanciados num comportamento leal com a generalidade dos fornecedores”, aponta, em declarações no âmbito de um artigo sobra a portugalidade como estratégia de marca, publicado na edição desta semana do M&P. A Centromarca é reúne as empresas de produtos de marca.
Meios & Publicidade (M&P): Qual a importância que pode hoje em dia assumir o factor “portugalidade” na estratégia das marcas? Muitas marcas têm vindo a apostar na portugalidade e no facto de serem produzidas em Portugal como factor preponderante nas suas estratégias de comunicação. Acha que este argumento funciona para os consumidores nacionais?
João Paulo Girbal (JPG): A portugalidade é um factor competitivo importantíssimo. Os consumidores, mais do que nunca, estão atentos à proveniência dos produtos que consomem e sempre que podem escolhem produtos nacionais porque têm um impacto directo no emprego e na economia local. Ser produzido em Portugal ou ter uma elevada incorporação de valor em Portugal significa criar riqueza local e dar trabalho a portugueses e, simultaneamente, diminuir as importações. Um aspecto que é fundamental para esta dinâmica positiva de preferência dos produtos com cada vez maior incorporação nacional é a informação que se transmite aos consumidores, nomeadamente nas embalagens, para que possa fazer uma escolha informada. Hoje a informação é insuficiente e há quem abuse dessa situação levando o consumidor a acreditar que está a beneficiar os produtores portugueses quando isso não é verdade. É neste contexto que aparecem alguns produtos com “dupla nacionalidade”, como os dióspiros de Portugal/Espanha ou as mangas amadurecidas em Portugal.
M&P: A portugalidade é uma boa estratégia para os mercados externos? Será um trunfo ou um entrave ao sucesso nos mercados de exportação?
JPG: Salientar a portugalidade nos mercados externos será tanto mais importante quanto Portugal se afirmar como marca que empresta valor aos produtos e serviços que exportamos. Nalgumas áreas temos esse reconhecimento mas, na maior parte, ainda há muito trabalho a fazer para que a portugalidade seja uma mais-valia para quem exporta. A marca Portugal tem de se afirmar como aspiracional e significar algo que os consumidores no estrangeiro procurem nas diferentes áreas/categorias.
M&P: Em que situações poderá ser positivo omitir ou mostrar que as marcas são portuguesas nos mercados internacionais? Ou seja, em que casos é melhor omitir a nacionalidade para avançar com a internacionalização e em que casos ser uma marca portuguesa pode ser uma mais valia?
JPG: Com honrosas excepções, como por exemplo a nossa oferta turística, alguns vinhos, produtos derivados da cortiça ou peixe do Atlântico, os fabricantes devem trabalhar assumindo que a marca Portugal está a ser construída pelo que fazem e exportam mais do que a emprestar credibilidade aos seus produtos e serviços.
M&P: As marcas de distribuição estão a crescer em quota de mercado mas são, muitas vezes, resultado de produtos importados. Como vê esta situação?
JPG: É uma situação claramente prejudicial à nossa economia. O emprego sofre e a carga do Estado Social que temos agrava-se porque é preciso gradualmente suportar mais gente e empresas em situações de dificuldades extremas à custa dos que ainda contribuem. A forma não transparente como são construídos os preços com que aparecem os produtos nas prateleiras distorce o mercado e dá aos donos dessas prateleiras um poder exagerado que chega ao ponto de decidir que produtos e empresas produtoras podem ser permitidas estarem no mercado. É impossível a um produtor de grande consumo não estar presente na grande distribuição porque 90% do que se compra e vende passa por 9 entidades, em que duas controlam cerca de 60%. Por outro lado, as marcas da distribuição não contribuem em nada para as nossas exportações, pois o consumidor dos outros mercados não as conhece nem as procura. Não é viável vender capacidade produtiva num mercado global em que todos têm acesso às mesmas tecnologias, às mesmas matérias-primas, os transportes de longo curso têm custos semelhantes mas, quando chegamos aos custos de produção, eles são muitíssimo mais baixos noutras geografias do que na União Europeia. Para exportar sustentadamente é essencial ter marca e trabalhar muito e bem para que seja reconhecida e querida nos diferentes mercados.
M&P: Apesar desta aposta em produtos importados, as cadeias de distribuição levam a cabo estratégias de comunicação de promoção e apoio aos produtores nacionais. Não estão a correr o risco de serem percepcionadas como hipócritas com este tipo de contra-senso?
JPG: Estes esforços de apoio à produção local pelas cadeias da distribuição acabam por ter um objectivo mais de marketing do que real pois não são consubstanciados num comportamento leal com a generalidade dos fornecedores. Que diferença pode fazer este esforço se, ao mesmo tempo que supostamente se apoiam uns (poucos), se fragilizam e destroem um número incomparavelmente superior de produtores? Quando se vende abaixo de custo com recurso a importação de produtos que Portugal tem em quantidade suficiente para as suas necessidades não estamos a apoiar a produção nacional. Há casos onde estas situações chegam à comunicação social e ao público consumidor mas muitos outros há que passam despercebidos do público excepto daqueles que têm a má fortuna de serem afectados directamente. O consumidor, à medida que percebe a realidade à sua volta com a destruição do emprego na produção e indústria e com os casos reais de gente que conhece pessoalmente, vai começando a perceber onde está a verdade. Este caminho não é rápido e não tenhamos ilusões porque, como demonstram os últimos números sobre o investimento em publicidade em Portugal, a área do comércio, e especificamente da grande distribuição, é a que mais cresce e já ultrapassou em valor absoluto todas as outras, tendo uma enorme capacidade para ir trabalhando a opinião pública com mensagens por vezes pouco claras sobre a portugalidade dos produtos que ostentam as suas marcas.