Opinião

As flores do 8 de março

As agências de hoje ainda têm elementos da agência de Draper. A Adagietto ainda tem nuances desse mundo. Na direção, somos mais homens do que mulheres, ainda que os restantes cargos de liderança sejam maioritariamente ocupados por mulheres

Miguel Moreira Rato, CEO da Adagietto
Opinião

As flores do 8 de março

As agências de hoje ainda têm elementos da agência de Draper. A Adagietto ainda tem nuances desse mundo. Na direção, somos mais homens do que mulheres, ainda que os restantes cargos de liderança sejam maioritariamente ocupados por mulheres

Sobre o autor
Miguel Moreira Rato

A série é de 2007, se não me engano. Na altura, tentei ver ‘Mad Men’, a série de Matthew Weiner, mas não senti qualquer vontade de passar do primeiro episódio, mesmo sendo uma série sobre a realidade de uma agência de publicidade nos anos de 1960 e 1970.

Há pouco mais de um mês, decidi revisitar a vida de Don Draper, o diretor criativo da agência de ‘Mad Men’, e, agora sim, tenho visto dois ou três episódios por dia. Já vou na sexta temporada. Estou quase a acabar. Sinto que voltei a fumar um maço por dia e que tudo me cheira a conhaque ou vodca, quando desligo a televisão.

‘Mad Men’ oferece um retrato fiel e muitas vezes incómodo do machismo presente na sociedade americana. A desigualdade de género, o assédio sexual no ambiente de trabalho e a luta das mulheres por reconhecimento e autonomia são temas recorrentes. Gritantes.

Se retirarmos os excessos da série que – aplausos à evolução dos tempos – quase nos fazem saltar do sofá, a verdade é que a representatividade feminina nas agências tem sido um tema cada vez mais discutido. Temas como o equilíbrio mulheres/homens em cargos de liderança ou políticas salariais têm voltado à praça pública.

Nascem plataformas digitais destinadas a encontrar talento feminino, como a The F Side, que depressa se transforma num coletivo contra o assédio no mundo da publicidade. Sessenta anos depois de ‘Mad Men’, plataformas como estas ganham uma expressão gigante, prova de que o tema está longe de estar enterrado.

Devia estar. Já não devia estar na agenda. Mais de 60 anos depois, as agências de hoje ainda têm elementos da agência de Draper. A Adagietto ainda tem nuances desse mundo. Na direção, somos mais homens do que mulheres, ainda que os restantes cargos de liderança sejam maioritariamente ocupados por mulheres.

Temos políticas dirigidas especificamente a mulheres – sobretudo a mães –, mas sentimos sempre que há mais para fazer. ‘Walk the talk’.

Não estamos nas décadas de 1960 nem 1970. Evoluímos muito. Mas ainda há muito a avançar. Tanto. E eu, homem, num lugar de liderança, sinto pouca legitimidade em falar sobre este tema. Mas faço-o por saber, através de um estudo da Informa D&B para a APECOM – associação que representa as agências de comunicação – que apesar das mulheres constituírem 70% dos profissionais no setor onde trabalho, apenas 40% dos cargos de liderança e gestão são exercidos no feminino.

Essa discrepância não se limita ao setor da comunicação. Em termos gerais, as mulheres representam 48% da população ativa em Portugal e têm, em média, um nível de escolaridade superior ao dos homens — 59% da população ativa com ensino superior são mulheres. No entanto, ocupam apenas 30% dos cargos de gestão e 27% dos cargos de liderança nas empresas portuguesas.

É crucial que as agências, Adagietto inclusive, implementem mais políticas de mentoria para mulheres, critérios mais transparentes para promoções e iniciativas que incentivem o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. A diversidade de género nas equipas não só promove a igualdade, como também contribui para a inovação e para campanhas mais autênticas e eficazes, que reflitam a diversidade da realidade portuguesa. Todos teremos a ganhar.

Houve enormes progressos na representatividade feminina no setor da comunicação em Portugal. Facto. Mas estamos longe de podermos riscar este tema da agenda. Muito longe de deixarmos de precisar de celebrar um Dia da Mulher onde dar uma flor às colaboradoras não deixa de parecer, pelo menos a mim, um gesto condescendente.

Sobre o autorMiguel Moreira Rato

Miguel Moreira Rato

CEO da Adagietto
Mais artigos
PUB
PUB
PUB
PUB
PUB
PUB
PUB
PUB
PUB
PUB

Navegue

Sobre nós

Grupo Workmedia

Mantenha-se informado

©2024 Meios & Publicidade. Todos os direitos reservados.